Atravessamentos

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    O Cachorro Que Não Veio Para Ficar Comigo

    Há experiências que não chegam para construir morada. Chegam para romper um padrão silencioso, atravessar um limiar interno e ir embora. O que vivi com o Théo, um cachorro que adquiri após a perda de uma cachorra guardiã, foi exatamente isso. Por muito tempo, associei valor à duração. Se algo não permanecia, eu tendia a revisitar o gesto, questionar a escolha, duvidar da minha percepção. Como se o tempo fosse o juiz final da verdade de um ato. Mas essa experiência me ensinou outra coisa: há atos que não pedem permanência, pedem acontecimento. Quando trouxe o Théo, não havia garantia. Havia presença. Havia risco. Havia um corpo que, pela primeira vez, não ficou paralisado diante da possibilidade de perda. Eu não sabia se daria certo….

  • Onde Nada Está Errado, Só Mudando

    Quando atravessamos ciclos rápidos, quando a vida nos pede mudanças quase em ritmo de respiração, algo delicado e invisível começa a se reorganizar por dentro. Não é só o hábito externo que muda — horários, escolhas, rotinas — é o campo inteiro que se ajusta. E é justamente aí que nasce a sensação estranha de que “algo não está funcionando como antes”. O que antes fluía sem esforço passa a ranger. Relações, emoções, o corpo, o sono, até pequenos detalhes do cotidiano parecem exigir nossa atenção. Não porque algo deu errado, mas porque o que era compatível com a frequência antiga já não encaixa perfeitamente na nova. É como mudar de estação sem trocar a roupa: o desconforto não é castigo, é aviso. Esses “problemas”…

  • O Lugar Onde Não Me Abandono

    Chega um momento em que a vida para de nos perguntar o que sabemos e começa a nos perguntar o que sustentamos. Não é mais sobre compreender, analisar ou nomear padrões. É sobre permanecer. Permanecer em si quando algo fora atravessa, fere, desorganiza ou provoca. Durante muito tempo, aprendi que me proteger significava retirar. Retirar o amor, a ajuda, a presença. Aprendi que, quando alguém errava comigo, o silêncio era uma forma de defesa, quase um escudo invisível. Um silêncio que punia, afastava, congelava. Não porque eu quisesse machucar, mas porque eu não sabia permanecer sem me perder. Esse silêncio era a linguagem possível de quem não aprendeu a se cuidar sem se fechar. Hoje, algo mudou de lugar. Eu percebo que não preciso mais…