Nem Toda Rejeição é Prova de que Você Não Merece Ficar
Às vezes eu sinto
que algumas rejeições doem mais do que deveriam.
Não por causa do que aconteceu agora, exatamente. Mas porque elas encostam em lugares antigos dentro da gente.
Feridas que já estavam ali há muito tempo.
É estranho perceber isso.
Uma palavra atravessa.
Um afastamento machuca.
Um silêncio pesa mais do que deveria.
E, no fundo, talvez a dor não esteja falando apenas daquela pessoa ou daquela situação.
Talvez ela esteja tentando alcançar versões antigas de nós mesmos que passaram muito tempo querendo ser escolhidas.
Tem dores que carregam memória.
Memória de não ter sido visto.
De não ter pertencido.
De ter aprendido cedo demais que amor podia desaparecer.
Então, quando alguém se afasta, o coração às vezes não reage só ao presente.
Ele reage a todos os abandonos que ainda não cicatrizaram completamente.
E acho que perceber isso muda alguma coisa dentro da gente.
Porque, aos poucos, você entende que nem toda recusa é uma confirmação da sua falta de valor.
Nem toda distância significa que existe algo errado em você.
Algumas pessoas simplesmente não conseguem caminhar na mesma direção que a nossa.
Algumas histórias não se encaixam.
Alguns afetos chegam até certo ponto e só.
E isso dói menos quando a gente para de transformar cada desencontro em sentença pessoal.
Eu sei que nem sempre é fácil.
Quando queremos ser amados, existe uma tendência silenciosa de começar a se ajustar demais.
Diminuir partes de si.
Suavizar opiniões.
Esconder sensibilidades.
Moldar o próprio jeito na esperança de finalmente caber no coração de alguém.
Mas existe um cansaço enorme em viver tentando merecer permanências.
Porque o amor que exige abandono constante de si mesmo acaba criando solidão mesmo quando alguém fica.
E talvez amadurecer emocionalmente tenha relação com isso: parar de correr desesperadamente atrás de aceitação e começar a perceber onde existe reciprocidade verdadeira. Onde você não precisa se desmontar para ser acolhido.
Nem toda rejeição é abandono.
Às vezes é apenas desalinhamento.
Tem encontros que não conseguem florescer porque as histórias são diferentes. Os tempos são diferentes. As necessidades são diferentes.
E isso não transforma ninguém em insuficiente.
Só humano.
Talvez algumas pessoas entrem na nossa vida não para permanecer, mas para mostrar feridas que ainda precisam de cuidado.
E embora doa reconhecer isso, também existe certa liberdade.
Porque quando você entende que nem toda recusa define seu valor, algo dentro de você para de implorar por lugares onde nunca conseguiria descansar de verdade.
Você começa a perceber que pertencimento não nasce do esforço de parecer adequado.
Nasce da possibilidade rara de existir inteiro perto de alguém sem sentir medo constante de ser deixado para trás.
Paula Teshima
