O Barulho Que Afasta A Gente de Si
Eu tenho percebido
como é fácil se perder aos poucos.
Não de forma dramática.
Mas silenciosa.
Você acorda, pega o celular, vê alguma coisa, responde outra, distrai a cabeça por alguns minutos que viram horas. E quando percebe, passou mais um dia inteiro sem realmente se ouvir.
É estranho porque existem muitos estímulos o tempo todo.
Muita informação.
Muito entretenimento.
Muita gente falando.
Mas quase nenhum espaço interno.
E talvez seja por isso que tanta gente anda cansada sem entender exatamente do quê.
Porque viver constantemente voltado pra fora cria uma distância lenta da própria voz interior.
Os insights diminuem.
A sensibilidade fica abafada.
Até os sentimentos parecem mais difíceis de identificar.
Você sente alguma coisa…
mas não consegue alcançar completamente.
Então procura mais distração.
Mais vídeos.
Mais ruído.
Mais qualquer coisa que preencha os pequenos silêncios do dia.
Só que existe um detalhe difícil de admitir: algumas distrações não servem pra relaxar. Servem pra anestesiar.
E a anestesia emocional quase sempre parece confortável no começo.
Porque olhar pra dentro exige presença. E presença nem sempre é leve.
Às vezes, quando o silêncio finalmente aparece, vêm junto perguntas que estavam esperando há muito tempo.
Coisas mal resolvidas.
Cansaços antigos.
Desejos esquecidos.
Então fugir se torna automático.
O problema é que quanto mais a gente se afasta de si mesmo, mais perdido tudo parece ficar. Como se a vida começasse a perder profundidade.
Você continua funcionando.
Continua fazendo o que precisa ser feito.
Mas existe uma sensação estranha de desconexão. Como se estivesse vivendo no modo automático por tempo demais.
Eu acho que a nossa voz interior não desaparece. Ela só fica encoberta.
Pelo excesso.
Pela pressa.
Pelo medo de sentir profundamente.
E talvez reencontrar essa voz não tenha tanto a ver com “se transformar”, mas com parar de se abandonar em pequenas doses diárias. Parar de preencher cada segundo vazio.
Permitir silêncio sem imediatamente correr pra alguma distração.
Ficar alguns minutos sozinho sem precisar consumir nada.
No começo isso pode até gerar desconforto. Porque o corpo desacostuma da própria presença. Mas depois alguma coisa começa a voltar.
Os pensamentos ficam mais claros.
As emoções começam a fazer sentido de novo. Pequenos insights aparecem sem esforço.
Como se existisse uma parte sua esperando apenas espaço suficiente pra respirar.
E talvez exista mesmo.
Talvez a gente não esteja tão perdido quanto imagina. Talvez esteja só cansado demais do excesso de barulho.
E aí, quando o silêncio finalmente encontra espaço dentro da gente, a vida volta a falar baixinho outra vez.
Paula Teshima
