Atravessamentos

  • Nem Toda Rejeição é Prova de que Você Não Merece Ficar

    Às vezes eu sinto que algumas rejeições doem mais do que deveriam. Não por causa do que aconteceu agora, exatamente. Mas porque elas encostam em lugares antigos dentro da gente. Feridas que já estavam ali há muito tempo. É estranho perceber isso. Uma palavra atravessa. Um afastamento machuca. Um silêncio pesa mais do que deveria. E, no fundo, talvez a dor não esteja falando apenas daquela pessoa ou daquela situação. Talvez ela esteja tentando alcançar versões antigas de nós mesmos que passaram muito tempo querendo ser escolhidas. Tem dores que carregam memória. Memória de não ter sido visto. De não ter pertencido. De ter aprendido cedo demais que amor podia desaparecer. Então, quando alguém se afasta, o coração às vezes não reage só ao presente….

  • O Amor Silencioso dos que Ficam ao Nosso Lado

    Eu tava pensando em como alguns seres chegam na nossa vida de um jeito quase invisível. Sem grandes promessas. Sem palavras. Sem precisar explicar nada. Eles apenas ficam. E talvez exista algo profundamente sagrado nisso. Porque os animais parecem enxergar partes nossas que o mundo inteiro ignora. Partes cansadas. Confusas. Fragilizadas. E ainda assim eles permanecem perto. Sem exigir versões melhores da gente. Tem dias em que uma pessoa mal consegue sustentar a própria existência. Mal consegue organizar os próprios pensamentos. Mal consegue se reconhecer. Mas aquele olhar continua ali. Calmo. Inteiro. Sem cobrança. Como se dissesse, em silêncio, que existir já basta. Às vezes eu acho que alguns seres caminham conosco justamente para nos lembrar disso. Não para salvar nossa vida de forma grandiosa….

  • Entre a Falta e o Excesso

    Às vezes eu penso que alguns excessos não nascem do desejo. Nascem da falta. De algo que ficou ausente por tanto tempo que, quando finalmente aparece, a gente não sabe mais medir. E então exagera. Se envolve demais. Entrega demais. Consome demais. Espera demais. Não porque aquilo seja realmente necessário, mas porque existe uma parte interna tentando compensar o vazio antigo. Como alguém que passou muito tempo com sedee agora bebe rápido demais,sem perceber o próprio limite. Tem faltas que continuam vivas dentro da gentemesmo depois que a vida muda. Falta de afeto. De atenção. De segurança. De pertencimento. E quando alguma coisa toca exatamente esse lugar, é difícil manter equilíbrio. Porque não é só sobre o presente. É também sobre tudo aquiloque um dia…

  • O Cansaço de Existir Longe de Si

    Eu tenho percebido como existe um tipo de cansaço que quase ninguém vê. Não é o cansaço do corpo. Nem aquele que passa depois de dormir um pouco mais. É um desgaste silencioso de quem passa tempo demais tentando existir de um jeito que não cabe dentro de si. Como se a pessoa precisasse se vigiar o tempo inteiro. Controlar palavras. Gestos. Afetos. Expressões pequenas que, pra muita gente, seriam naturais. E talvez o mais triste seja que, no começo, isso até parece suportável. A gente acha que consegue continuar. Que dá pra se adaptar. Que esconder certas partes de si não vai custar tanto assim. Mas custa. Custa aos poucos. Porque viver longe da própria verdade cria uma sensação estranha de ausência. Como se…

  • O Alívio do Silêncio

    Tem momentos em que estar com pessoas cansa mais do que deveria. E o estranho é que, às vezes, não aconteceu nada ruim. Ninguém brigou. Ninguém feriu você diretamente. Mesmo assim, quando tudo termina, o que sobra é um desejo enorme de silêncio. De ficar sozinho. De não precisar conversar. De simplesmente existir sem ser percebido. Eu tenho pensado que talvez esse cansaço nem sempre venha das pessoas. Às vezes vem do esforço invisívelde tentar caber. De ajustar o tom da voz. As palavras. As reações. O jeito de agir. Como se uma parte sua estivesse o tempo inteirose observando de fora. Tentando ser agradável. Tentando não incomodar. Tentando manter alguma imagem que nem parece mais natural. E isso desgasta de um jeito silencioso. Porque…

  • Mesmo Quando Ninguém Vê

    às vezes eu penso em como existem momentos em que a gente se sente completamente sozinho. não sozinho de ficar sem companhia… mas aquele outro tipo de solidão, mais silenciosa, mais funda. como se ninguém realmente pudesse alcançar o que está acontecendo dentro da gente. e talvez seja justamente nessas horas que a gente mais esquece que existe algo além do que os olhos conseguem enxergar. eu tenho percebido que a vida manda ajuda de formas muito estranhas. às vezes vem numa frase solta que alguém fala sem perceber. num encontro rápido. numa música tocando no momento exato. numa sensação repentina de calma depois de dias difíceis. e eu fico pensando se isso não é uma forma de cuidado também. tem coisas que parecem coincidência…

  • A Parte Que Resiste

    Tem horas que mudar por dentro não parece bonito. Não tem clareza. Não tem leveza. Não tem aquela sensação imediata de liberdade que todo mundo fala. Às vezes, o que vem é cansaço. Confusão. Emoções bagunçadas. Um peso estranho no peito que você nem consegue explicar direito. E eu acho que parte disso acontece porque crescer internamente mexe em lugares antigos. Lugares que passaram anos fechados. Quando você começa a enxergar certas coisas, já não consegue fingir que não viu. Só que também não consegue mudar tudo de uma vez. Então nasce esse conflito silencioso. Uma parte sua quer seguir em frente. Quer deixar ir. Quer respirar diferente. Mas outra ainda sente medo. Medo do desconhecido. Medo de perder referências antigas. Medo de soltar dores…

  • O Lugar Onde a Essência se Cala

    Às vezes eu penso que muita gente passa a vida tentando voltar para si… sem perceber exatamente em que momento se perdeu. Porque desde muito cedo o mundo começa a ensinar certas formas de existir. O jeito certo de falar. De sentir. De reagir. De ser aceito. E dependendo do ambiente, a autenticidade vai ficando perigosa demais. Algumas crianças aprendem rápido que mostrar tristeza incomoda. Que falar o que sentem gera afastamento. Que ser sensível demais traz crítica. Que existir de forma espontânea pode custar amor, acolhimento, pertencimento. Então elas começam a se adaptar. Não por escolha consciente. Mas por sobrevivência emocional. E talvez seja aí que aconteça uma das dores mais silenciosas da vida: quando alguém percebe, ainda muito cedo, que para continuar recebendo…

  • A Raiva de Não Ter Agido Antes

    às vezes eu penso em como a raiva do passado tem um jeito estranho de permanecer dentro da gente. não como um grito constante… mas como um peso silencioso que aparece em momentos aleatórios. quando a casa fica quieta.quando o dia termina.quando a gente percebe que certas coisas poderiam ter sido diferentes se tivesse tido coragem antes. e talvez o que mais doa nem seja o que aconteceu. é imaginar quem a gente poderia ter sido se tivesse reagido mais cedo. se tivesse dito não.se tivesse ido embora.se tivesse começado antes.se tivesse acreditado mais em si mesmo naquele momento em que tudo parecia pequeno demais. tem uma tristeza específica em olhar pra trás e perceber o quanto o medo, a insegurança ou o cansaço fizeram…

  • Quando o Barulho de Fora Silencia a Voz de Dentro

    Você percebe quando começou? Provavelmente não. Foi gradual. Um vídeo aqui, uma série ali, redes sociais sempre abertas, música nos fones o dia inteiro, conversas constantes, estímulos sem pausa. E de repente, você percebe: faz tempo que não fica em silêncio. Faz tempo que não está realmente consigo mesmo. Essas fontes externas de prazer – entretenimento, pessoas, distrações diversas – não são ruins em si. O problema começa quando você não consegue mais ficar sem elas. Quando o silêncio vira desconforto insuportável. Quando estar sozinho consigo mesmo parece ameaçador, entediante, até angustiante. E então você preenche cada brecha. Acorda e já pega o celular. Come assistindo algo. Trabalha ouvindo podcast. Caminha com música. Dorme com vídeo no fundo. O dia inteiro conectado lá fora, desconectado…