A Chave Estava Aqui

Eu tenho percebido
como algumas dores acabam virando casa.

Mesmo quando machucam,
mesmo quando cansam,
a gente continua ali.
Como se soltar fosse mais assustador
do que permanecer preso.

E às vezes nem existe uma prisão de verdade.

Só um apego silencioso
a versões antigas da gente.
A medos que aprenderam a falar por dentro.
A ressentimentos que parecem proteger,
mesmo ferindo aos poucos.

Tem coisas que a gente segura
porque acredita que, sem elas,
vai sobrar vazio.

Mas talvez o vazio não seja o fim.
Talvez seja só o começo de um espaço novo.

Eu tava pensando nisso…
em como existe uma criança dentro da gente

que ainda espera ser escolhida,
escutada,
acolhida.

E enquanto ela continua esquecida,
qualquer liberdade parece incompleta.

Porque não adianta fugir do lado de fora
quando alguma coisa ainda dói aqui dentro.

A parte difícil é perceber
que ninguém pode fazer esse caminho pela gente.

As pessoas ajudam.
Abraçam.
Ficam por perto.

Mas existem portas
que só abrem por dentro.

E talvez crescer seja isso:
parar de esperar que alguém venha salvar, e finalmente ter coragem
de sentar ao lado da própria dor
sem desviar o olhar.

Não pra se afundar nela.
Mas pra entender o que ela tentou dizer esse tempo todo.

Tem libertações que acontecem em silêncio.

Sem anúncio.
Sem grandes viradas.
Só um dia você percebe
que aquilo já não te prende como antes.

E talvez a chave nunca tenha estado longe.

Talvez ela tenha nascido
no instante em que você decidiu
olhar pra si mesmo
com um pouco mais de verdade
e um pouco menos de medo.

Paula Teshima