O Que Ainda Faz Ficar

Tem coisas bonitas que confundem a gente.

Um cuidado pequeno.
Uma conversa leve no fim do dia.
O jeito que alguém conhece nossos silêncios.
As memórias.
Os momentos em que tudo parecia encaixar.

E às vezes são justamente essas partes boas que fazem a gente continuar…
mesmo quando o resto já começa a doer mais do que acolher.

Porque é difícil aceitar que algo pode ter beleza e, ainda assim, não ser mais um lugar pra ficar.

Eu tava pensando nisso.

Na quantidade de pessoas que permanecem presas não ao relacionamento inteiro…
mas aos poucos instantes de conforto que existem dentro dele.

Como se abandonar aquilo significasse perder pra sempre tudo o que fez bem.

Mas talvez não seja assim.

Talvez aquilo que toca a gente de verdade nunca pertença totalmente a alguém.
O afeto.
O acolhimento.
A sensação de ser visto.
O riso sincero.
A leveza.

Nada disso nasce só em uma pessoa.
Nem existe apenas em um único lugar.

A gente sente porque também existe dentro da gente uma capacidade de reconhecer essas coisas.

E talvez seja isso que às vezes esquecemos:
o amor que recebemos também conversa com partes nossas que já estavam ali.

Tem horas que o medo de ir embora vem dessa ideia silenciosa de escassez.
Como se aquele fosse o último lugar possível de afeto no mundo.

Como se depois dali existisse apenas vazio.

Mas a vida quase nunca funciona desse jeito.

Ela muda.
Se move.
Abre caminhos inesperados.
Traz encontros que a gente nem imaginava.
E às vezes devolve pra nós mesmos coisas que passamos tempo demais tentando encontrar no outro.

Eu acho bonito perceber isso.

Entender que algumas experiências não vieram para durar para sempre…
vieram para mostrar sensações que ainda existirão em muitos outros capítulos da vida.

Até porque aquilo que faz bem de verdade não costuma viver preso.
Ele reaparece.

Em outras pessoas.
Em novas fases.
Em dias simples.
E às vezes,
na paz silenciosa de finalmente voltar pra si mesmo.

Paula Teshima