Quando o Silêncio Era Proteção

Durante muito tempo, acreditei que eu era tímida. Essa palavra foi repetida tantas vezes que acabou se tornando uma explicação pronta — simples demais para algo que, por dentro, sempre foi mais complexo. Eu aceitei o rótulo porque naquela época não tinha outro, mas ele nunca explicou completamente quem eu era.

Hoje, com mais consciência psicológica e mais escuta do corpo, percebo algo essencial: a retração que vivi não era estrutural. Ela era contextual. Dentro de casa, eu não era tímida. Eu era espontânea, viva, expressiva. Falava, brincava, me mostrava sem esforço. Meu sistema nervoso reconhecia aquele ambiente como seguro. O corpo sabia relaxar. E quando o corpo relaxa, a expressão acontece naturalmente.

Fora de casa, algo mudava. O mesmo corpo entrava em estado de vigilância. Eu percebia exigências implícitas, regras não ditas, expectativas alheias. Não sabia ainda me defender emocionalmente, não tinha repertório para sustentar quem eu era diante do olhar do outro. Então o organismo fazia o que organismos sensíveis fazem quando não se sentem seguros: retraía.

Psicologicamente, isso não é timidez. É autorregulação. É um sistema nervoso tentando se proteger de sobrecarga, de julgamento, de exposição sem apoio. A retração não vinha da ausência de desejo de contato, mas do excesso de percepção. Eu sentia demais. Observava demais. E, sem ferramentas internas, escolhia o silêncio como refúgio.

Espiritualmente, vejo hoje que esse recolhimento também tinha uma função. Havia em mim uma sensibilidade fina, ainda sem contorno, que precisava de tempo e maturação. O silêncio não era vazio — era gestação. Não era medo essencial de existir, mas um adiamento inconsciente da expressão até que houvesse base interna suficiente.

Por isso, quando mais tarde a segurança começou a vir de dentro — através do autoconhecimento, da interiorização, da consciência de mim mesma — algo se reativou. A curiosidade voltou. O desejo de experimentar a vida despertou. A vontade de falar, refletir, explorar e me mostrar emergiu com força. Isso não foi uma mudança de personalidade. Foi a retirada de um bloqueio adaptativo.

A timidez estrutural não se dissolve assim. Quando ela é essência, a expansão não acontece com esse vigor. O que aconteceu comigo foi diferente: quando o medo diminuiu, a vida voltou a circular.

Hoje consigo olhar para a criança que fui com mais compaixão. Ela não estava errada. Ela estava se protegendo. Ela se fechava onde não havia chão e se abria onde havia acolhimento. Isso é inteligência emocional em estado bruto, não defeito.

Reconhecer isso reorganiza minha história por dentro. Retira um rótulo que nunca explicou minha experiência e devolve dignidade ao meu silêncio antigo. Eu não era tímida demais para o mundo. O mundo, naquele momento, era pouco seguro para a minha sensibilidade.

E agora, com mais presença, posso existir sem precisar me esconder — não porque me tornei outra pessoa, mas porque finalmente posso ser quem sempre fui.

Paula Teshima