A Fantasia da Virada Externa
Existe uma fantasia silenciosa que atravessa muitas decisões da vida adulta: a ideia de que algo externo — um objeto, uma pessoa, um evento, uma mudança de cenário — será o ponto de inflexão definitivo. Como se, ao atravessar aquela porta específica, a vida finalmente se reorganizasse por completo. Essa fantasia não costuma ser percebida como fantasia. Ela se apresenta como intuição, como “sentir que agora vai”, como esperança racionalizada.
Psicologicamente, essa crença não nasce do consumo nem da superficialidade. Ela nasce de um desencontro entre processos internos lentos e a necessidade humana de marcar mudanças de forma visível. Transformações emocionais reais são graduais, pouco espetaculares e difíceis de narrar. Elas acontecem enquanto seguimos vivendo. O psiquismo, então, cria símbolos externos para dar forma a algo que está acontecendo por dentro, mas ainda não foi integrado.
Quando há desconforto difuso — sensação de estagnação, cansaço emocional, conflito interno, perda de sentido — o sistema psíquico busca uma causa concreta. Algo que possa ser nomeado, comprado, alcançado ou encontrado. A fantasia surge como uma promessa: “quando isso acontecer, eu vou me sentir diferente”. O objeto ou a experiência se tornam recipientes de uma expectativa que, na verdade, diz respeito a uma reorganização interna ainda em curso.
Essa fantasia também se alimenta da memória. Em fases iniciais da vida, mudanças externas realmente têm impacto estrutural: trocar de escola, conhecer alguém importante, mudar de casa, perder alguém querido. O sistema aprende que o externo pode redefinir tudo. Na vida adulta, essa lógica é mantida mesmo quando as transformações já não funcionam da mesma forma. O corpo amadurece, mas a expectativa permanece.
A cultura contemporânea reforça esse mecanismo o tempo todo. Produtos, eventos e relações são vendidos como experiências transformadoras. Não se promete apenas utilidade, mas identidade, pertencimento e sentido. Essa narrativa encontra terreno fértil em pessoas sensíveis, reflexivas e em constante processo interno, que percebem que algo está mudando, mas ainda não sabem exatamente o quê.
O problema não é desejar mudança. O problema é deslocar a responsabilidade dessa mudança para fora. Quando a fantasia está ativa, a pessoa vive em estado de antecipação. O presente se torna provisório, um intervalo até que algo aconteça. A frustração surge quando o objeto é comprado, a pessoa é conhecida ou o evento acontece — e a vida continua sendo vida. Não pior, não melhor. Apenas contínua.
A queda dessa fantasia não acontece por desilusão brusca, mas por maturação. Em algum momento, a pessoa percebe que as verdadeiras viradas não têm música de fundo nem anúncio. Elas se revelam depois, quando se nota que certos padrões já não se repetem, que algumas reações perderam força, que determinadas escolhas se tornaram mais simples. A vida muda sem espetáculo.
Quando isso é compreendido, o externo volta ao seu lugar. Objetos passam a ser ferramentas, pessoas passam a ser encontros possíveis, eventos passam a ser experiências pontuais. Eles não carregam mais a obrigação de salvar, completar ou redefinir. A fantasia cede espaço à presença.
Psicologicamente, esse é um sinal de integração. A esperança deixa de ser projetada e retorna como confiança no processo. A vida não precisa mais de um marco para mudar. Ela muda porque está viva — e porque o sujeito aprendeu a permanecer nela enquanto muda.
Paula Teshima