Presença

  • Quando os Pensamentos Batem à Porta Fora de Hora

    Você está lavando a louça. As mãos na água morna, o corpo cumprindo um gesto aprendido, repetido, quase esquecido. O mundo cabe nesse pequeno círculo: prato, espuma, som da água. E então, sem aviso, algo se acende. Um pensamento atravessa o campo como faísca no escuro. Uma conexão inédita. Um entendimento que nunca tinha se mostrado inteiro. Há um leve sobressalto interno: isso é importante. Nesse exato instante, nasce o limiar. O corpo permanece ali, mas a atenção parte. A louça continua sendo lavada, porém você já não está mais presente. Uma parte sua atravessa o portal do pensamento, começa a seguir o fio, a explorar memórias, padrões, hipóteses. Outra parte continua no automático. Meio aqui, meio ausente. Meio no mundo, meio na mente. Esse…

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    Quando Aprendi a Não Atravessar Todos Portais

    Por muito tempo, achei que todo desejo era um chamado para agir.Que sentir vontade era sinônimo de precisar atravessar.Que o novo só se completava quando eu entrava, comprava, consumia, fazia. Hoje eu vejo diferente.Hoje eu reconheço: isso que eu vivo é um tipo de limiar cotidiano. Nem todo limiar é vida ou morte.Nem todo portal pede entrega total.Alguns são micro-limiares de experiência — sutis, silenciosos, quase invisíveis. Eles aparecem assim:Um objeto que chama minha atenção.Uma comida que desperta curiosidade.Uma ideia que acende algo por dentro.Uma possibilidade que sussurra:“Quero ver como é.” E aprendi algo importante sobre mim:Isso não é compulsão.Nunca foi.É curiosidade de travessia. Quando esse estímulo surge, meu corpo abre um micro-portal.Não para possuir, mas para sentir.Não para acumular, mas para perceber. É como…

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    Fugimos da presença porque muitas atividades do dia a dia parecem monótonas, chatas, “inferiores”. Então a mente oferece escapatória: “Enquanto você faz isso aqui (que é chato), eu vou te entreter com pensamentos sobre coisas mais interessantes.” Parece útil, mas é fragmentação. Você vive metade aqui, metade em lugar nenhum. Nunca completo em nada.

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    Nem toda atividade será emocionante. Mas pode ser vivida. Há diferença entre atividade entediante vivida com presença e atividade entediante vivida fugindo mentalmente. A primeira é experiência real. A segunda é tempo morto.

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    Ao final de uma atividade, pergunte: “Eu me lembro de ter feito isso? Eu estava ali ou estava no piloto automático pensando em mil coisas?” Se você mal lembra, você não estava presente. Se você consegue recordar detalhes sensoriais da experiência, você estava.

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    Presença é isso: habitar plenamente cada momento, mesmo os aparentemente insignificantes. Porque quando você soma todos esses “momentos insignificantes”, eles formam sua vida. E se você não estava presente neles, você literalmente não viveu sua própria vida.

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    Não é sobre não ter nenhum pensamento. Pensamentos vão surgir, pois é função da mente. Entretanto, podemos exercitar a presença ao percebermos quando saímos do nosso eixo e escolhemos voltar. De novo, e de novo, e de novo. Isso é treino, não é perfeição.

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    O Cachorro Que Não Veio Para Ficar Comigo

    Há experiências que não chegam para construir morada. Chegam para romper um padrão silencioso, atravessar um limiar interno e ir embora. O que vivi com o Théo, um cachorro que adquiri após a perda de uma cachorra guardiã, foi exatamente isso. Por muito tempo, associei valor à duração. Se algo não permanecia, eu tendia a revisitar o gesto, questionar a escolha, duvidar da minha percepção. Como se o tempo fosse o juiz final da verdade de um ato. Mas essa experiência me ensinou outra coisa: há atos que não pedem permanência, pedem acontecimento. Quando trouxe o Théo, não havia garantia. Havia presença. Havia risco. Havia um corpo que, pela primeira vez, não ficou paralisado diante da possibilidade de perda. Eu não sabia se daria certo….