Ensaios

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    A Mentira da Neutralidade: Quando o Analista Esconde sua Humanidade

    Existe algo profundamente contraditório na postura psicanalítica clássica: pedimos ao paciente que seja vulnerável, autêntico, transparente – enquanto o analista permanece opaco, controlado, performaticamente neutro. Exigimos verdade enquanto oferecemos teatro. O paciente pergunta: “Você parece diferente hoje, está tudo bem?” E o analista, que talvez esteja atravessando um divórcio, um luto, uma crise existencial, responde mecanicamente: “Estamos aqui para falar de você, não de mim.” Ou pior, mente: “Está tudo bem, sim.” E segue mantendo a máscara da indiferença profissional. Mas o que estamos ensinando nesse momento? Que vulnerabilidade é para os fracos. Que pessoas “evoluídas” não demonstram fragilidade. Que existe uma hierarquia onde o analista está acima, imune, resolvido – e o paciente embaixo, bagunçado, necessitado. Estamos reproduzindo exatamente a dinâmica que adoeceu o…

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    O Paradoxo da Intuição: Por Que Confiamos Nos Medos e Duvidamos da Sabedoria

    Existe uma inversão trágica e quase universal na psique humana: desconfiamos daquilo que é verdadeiro e acreditamos piamente naquilo que é ilusório. A intuição genuína, quando chega, é recebida com ceticismo. Já o medo neurótico, a paranoia fabricada pelo ego – isso sim, acreditamos de olhos fechados. Por que isso acontece? A psicanálise nos dá uma pista: o ego opera a partir do conhecido, do familiar, dos padrões já estabelecidos. Ele foi construído através de experiências passadas, traumas, condicionamentos. Então, quando surge um medo – “e se eu for traído?”, “e se eu perder tudo?”, “e se isso der errado?” – o ego reconhece aquilo. Já viveu algo parecido, ou foi ensinado a temer. Aquele medo tem a textura do familiar. Por isso parece real,…

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    A Sabedoria do Negativo: Por Que Evitar a Dor Te Mantém Preso Nela

    Existe um movimento espiritual moderno obcecado pela “vibração alta”, pela “energia positiva”, pelo afastamento de tudo que seja denso, pesado ou desconfortável. As pessoas criam bolhas de positividade tóxica, filtram obsessivamente suas experiências, repetem afirmações enquanto reprimem raiva, e se culpam quando inevitavelmente sentem tristeza ou medo. “Não posso baixar minha vibração”, dizem, enquanto constroem prisões douradas de negação. Mas aqui está a verdade que tanto a psicanálise quanto a espiritualidade autêntica revelam: o negativo não é seu inimigo. Ele é, muitas vezes, o caminho mais direto para o positivo genuíno. Pense nisso: quando você toca fundo na dor, quando atravessa completamente um luto, quando sente raiva até o fim sem reprimi-la, algo acontece do outro lado. Há uma liberação, uma leveza natural que emerge….

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    O Jogo da Dança: Entre Ego e Transcendência

    A vida pede algo paradoxal: você precisa construir um ego forte o suficiente para funcionar no mundo, mas flexível o suficiente para não ficar aprisionado nele. É como aprender a nadar – você precisa de estrutura corporal para não afundar, mas também precisa saber relaxar e fluir com a água. Muita rigidez, você afunda. Muita dissolução, você se perde. A psicanálise nos ensina que o ego saudável é aquele que tem fronteiras claras, mas permeáveis. Sabe quem é, mas não se identifica absolutamente com essa construção. Consegue dizer “eu”, mas também consegue temporariamente suspender esse “eu” quando necessário. É firme, mas não fixo. Forte, mas não rígido. Isso se torna crucial quando você busca experiências espirituais. Para meditar profundamente, para conectar-se com dimensões mais sutis,…

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    A Origem do Apego: Lições Não Aprendidas no Colo Materno

    Tudo começa no seio. O bebê mama, sente prazer, segurança, plenitude. Aquele momento é o universo inteiro para ele. Não existe passado, não existe futuro – só aquele calor, aquele leite, aquela conexão. É o primeiro paraíso que conhecemos. E então vem a primeira grande lição da vida: desapegar. A mãe precisa tirar o bebê do peito. Não porque não o ama, mas justamente porque o ama. Ela sabe que há um mundo inteiro além daquele seio, outras formas de prazer, outros alimentos, outras experiências. Se o bebê ficar eternamente grudado ali, nunca vai descobrir que existe papinha, brincadeira, exploração, autonomia. Mas aqui está o problema: nem toda mãe ensina isso. Algumas, por culpa, insegurança ou própria carência, mantêm o bebê agarrado demais, por tempo…

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    A Alquimia do Olhar: Transformando Veneno em Remédio

    Existe uma sabedoria profunda naquilo que Jung chamou de “função transcendente” – a capacidade da psique de extrair significado e crescimento justamente daquilo que parece destrutivo. E a espiritualidade ecoa isso ao ensinar que nada na vida é acidental: cada situação carrega uma lição disfarçada, mesmo quando chega vestida de tragédia. O problema é que nossa primeira reação diante de qualquer desafio é quase sempre negativa. Alguém nos trai e vemos apenas a traição, não a oportunidade de fortalecer nossa autonomia emocional. Perdemos um emprego e só enxergamos o fracasso, não o convite para um caminho mais alinhado. Adoecemos e focamos apenas na dor, ignorando que o corpo está gritando algo que a mente se recusa a ouvir. Isso acontece porque operamos no automático. A…

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    O Neurótico Vive Como Uma Alma Avançada, Mas Num Corpo Despreparado

    Há algo paradoxal na neurose: o neurótico é simultaneamente muito consciente e muito travado. Geralmente, ele enxerga a realidade com clareza impressionante, percebe nuances que outros ignoram, tem insights profundos sobre si e sobre o mundo – mas não consegue agir. Vê o problema, mas foge dele. Reconhece a dor, mas a reprime. Entende o que precisa fazer, mas paralisa. De onde vem essa contradição? Talvez da própria história espiritual dessa alma. Imagine que o neurótico seja uma alma relativamente evoluída que decidiu reencarnar na Terra para aprender justamente aquilo que mais evitou em vidas passadas: lidar com emoções densas, enfrentar desafios materiais, sujar as mãos na imperfeição do mundo físico. Ela vem com consciência espiritual expandida – por isso enxerga tanto – mas sem…

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    A Psicose Como Desequilíbrio Kármico: Quando o Espiritual Avança Sem o Emocional

    E se a psicose não fosse apenas um transtorno cerebral, mas uma consequência espiritual de vidas anteriores mal equilibradas? E se aquela pessoa que surta, que perde o contato com a realidade consensual, estivesse na verdade pagando o preço de ter desenvolvido faculdades espirituais sem ter curado suas feridas emocionais em encarnações passadas? Imagine uma alma que, em vidas anteriores, dedicou-se intensamente à espiritualidade. Meditou por anos, desenvolveu clarividência, expandiu a consciência – mas ignorou completamente seus traumas, suas dores psicológicas, suas feridas relacionais. Ela avançou espiritualmente sem fazer o trabalho emocional de base. Construiu um arranha-céu sobre a areia movediça. Essa alma reencarna. E traz consigo essas capacidades espirituais desenvolvidas. Só que agora, nesta vida, elas afloram sem estrutura psicológica para sustentá-las. É como…

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    A Espiritualidade Como Fuga: Quando a Luz Esconde a Sombra

    Vivemos uma era de boom espiritual. Nunca houve tanta informação disponível sobre meditação, chakras, frequências vibracionais, leis universais, manifestação. As redes sociais transbordam de gurus ensinando como elevar sua energia, conectar-se com o divino, alcançar a iluminação. E milhões de pessoas mergulham nesse universo buscando paz, propósito, transcendência. Mas há um problema silencioso nessa busca: para muitos, a espiritualidade tornou-se apenas outra forma de evitar a si mesmo. Funciona assim: a pessoa está ferida, traumatizada, carregando dores emocionais não resolvidas. Em vez de olhar para dentro, para a raiz do sofrimento, ela encontra na espiritualidade um anestésico elegante. Ela medita para acalmar a ansiedade, mas não investiga por que está ansiosa. Ela trabalha seus chakras, mas ignora as feridas da infância que bloqueiam seu coração….

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    O Apego Como Prisão: Quando o Bom Impede o Melhor

    Existe um fenômeno curioso que acontece em muitos consultórios de psicanálise: a pessoa inicia o processo, começa a se conhecer, a enxergar padrões – e de repente abandona a análise. Não porque não está funcionando, mas justamente porque está funcionando bem demais. Ela percebe, ainda que inconscientemente, que continuar o tratamento significa ter que mudar. E mudar significa abandonar o que já tem. Pode ser um casamento morno, mas seguro. Um emprego que paga bem, mas sufoca a alma. Um círculo social que a valida, mas limita. Uma cidade confortável, mas pequena demais para seus sonhos. A pessoa olha para tudo isso e pensa: “Está bom assim. Por que arriscar?” E então interrompe a análise antes que ela se force a escolher entre o conforto…