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  • Quando o Descanso Vira Culpa: O Superego do Neurótico Obsessivo

    O neurótico obsessivo vive em um ciclo constante de obrigações, tarefas e responsabilidades. Em alguns momentos, ele até consegue relaxar ou se divertir, mas a sensação de prazer é sempre interrompida pelo superego, que lembra: “Volte ao trabalho!”, “Não é hora de se distrair!”. Esse excesso de ocupação não é apenas fruto de disciplina ou perfeccionismo. De forma inconsciente, o trabalho excessivo ajuda a manter o reprimido preso. Ao se sobrecarregar, o indivíduo esgota sua energia física e emocional, impedindo-se de atender aos desejos e impulsos reprimidos que surgem do inconsciente. O que poderia ser uma fonte de criatividade, prazer ou expressão de sentimentos se torna, assim, motivo de autopunição silenciosa. O neurótico obsessivo, sem perceber, está sempre desviando a atenção do que realmente precisa…

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    O Aprendizado Orgânico: Quando a Vida é a Verdadeira Escola

    Talvez tenhamos invertido a ordem natural do aprendizado. A civilização nos ensinou que primeiro vem a teoria, depois a prática. Mas a natureza sussurra o contrário – ela nos mostra que a vida aprende vivendo. Observe uma criança antes da escola formal. Ela não lê um manual sobre como andar; ela cai, levanta, tropeça e, de repente, está correndo. Não estuda a teoria da linguagem; ela escuta, balbucia, erra e, naturalmente, fala. Esse é o aprendizado orgânico, aquele que Jung chamaria de individuação – o processo natural de tornar-se quem você é através da experiência vivida. A psicanálise nos revela que muitos dos nossos traumas vêm justamente desse descompasso: aprender coisas antes de estarmos prontos, ou sermos forçados a saber o que ainda não precisávamos…

  • Quando os Desejos Reprimidos Silenciam as Emoções

    Quando a criança não recebe orientação ou apoio dos pais para lidar com os impulsos do Id — aquela parte da psique que contém os desejos instintivos e a energia vital — ela pode desenvolver medo desses próprios impulsos. Sem aprender a canalizá-los de forma saudável, a única estratégia que encontra é a repressão, empurrando para o inconsciente aquilo que sente e deseja, mas que percebe como perigoso ou proibido. O problema é que o Id é a fonte essencial de vida, afetos e criatividade. Ao ser reprimido, o sujeito pode sentir um alívio momentâneo, mas isso vem acompanhado de uma limitação profunda: ele passa a se afastar de suas próprias emoções, da expressão espontânea de desejos e da capacidade de criar vínculos autênticos e…

  • Neurótico Obsessivo: Aprendendo a Lidar com o Inesperado

    O neurótico obsessivo tende a querer manter tudo sob controle, organizado e certinho. Essa necessidade extrema de ordem não é apenas para ter rotina ou perfeição: ela serve para manter conteúdos reprimidos no inconsciente, afastando emoções que o paciente considera perigosas ou desconfortáveis. Na psicanálise, o papel do analista é justamente ajudar o paciente a perceber essas armadilhas da mente. Para isso, é recomendado provocá-lo de forma cuidadosa, quebrando suas expectativas e introduzindo surpresas sutis. Perguntas inesperadas, pequenas rupturas na rotina ou reflexões que desafiem o planejamento podem parecer simples, mas têm um efeito profundo: mostram que nem tudo precisa seguir um script rígido. Com o tempo, o paciente começa a perceber que é possível lidar com imprevistos sem desmoronar e, principalmente, que é seguro…

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    O Desafio da Auto-Reflexão Nos Jovens

    Vivemos em uma era marcada por conexões incessantes. Desde que nasceram, os jovens do século XXI estão imersos em um fluxo constante de informações, redes sociais, notificações e imagens que disputam sua atenção. O mundo externo se apresenta de forma tão intensa e imediata que pouco espaço sobra para o que realmente acontece dentro deles. A capacidade de olhar para si mesmos, de ouvir seus próprios pensamentos, sentimentos e desejos, tornou-se um desafio silencioso, quase esquecido. A auto-reflexão, que antes se cultivava nos momentos de tédio ou na tranquilidade de um ambiente solitário, agora é constantemente interrompida. O tédio, aquele espaço mental aparentemente vazio, sempre foi fértil para a introspecção. É nele que a mente se organiza, que surgem insights e compreensões sobre si mesmo….

  • O Labirinto do Superego

    Toda criança precisa de limites Como cercas suaves que a guiam Para distinguir o certo do errado Para caminhar no mundo sem se perder. Mas quando os pais são ausentes Negligentes ou indiferentes O cuidado que deveria acalmar Se transforma em vazio silencioso. Então nasce um superego feroz Uma sentinela implacável dentro da alma Que vigia cada pensamento Que pune cada desejo Que constrói muralhas de medo e culpa. A rigidez extrema sufoca E a escassez de afeto endurece Ambas criam monstros internos Que limitam, castigam e aprisionam. E assim, a criança aprende sozinha A sobreviver num mundo duro Carregando dentro de si Um juiz severo Que nunca descansa Que nunca perdoa. Mas mesmo nas sombras do superego Há a possibilidade de encontro De olhar…

  • O Barulho Que Cala o Inconsciente

    O obsessivo carrega dentro de si um medo antigo: o medo de relaxar, de soltar o corpo, de deixar o inconsciente respirar. Ele teme o vazio, pois sabe que, no silêncio, os desejos escondidos começam a sussurrar. Então, mantém-se ocupado, sempre em movimento, como se a pressa pudesse calar o que sente. Cada tarefa é uma muralha, cada obrigação, um disfarce. Trabalha, planeja, organiza, não por amor à ordem, mas por medo do caos interior. Dentro dele, há um fogo contido, impulsos que parecem perigosos, monstruosos até, porque nunca foram compreendidos. E assim, vive exausto tentando controlar o incontrolável, evitando o abismo do próprio desejo. Mas é nesse abismo que mora a liberdade. Paula Teshima

  • Quando a Alma Se Perde Entre Fantasias e Sintomas

    A neurose nos coloca diante de um dos paradoxos mais dolorosos da existência humana: o desperdício da nossa força vital em ciclos que não nos alimentam. É como se a pessoa estivesse constantemente correndo em uma esteira, gastando toda sua energia, mas sem sair do lugar. E o mais cruel é que essa corrida acontece simultaneamente em dois planos: no mundo externo e no mundo interno. Quando olhamos para a dinâmica da libido na neurose, percebemos um desvio dessa energia criativa e sexual que nos move. Em vez de fluir naturalmente em direção ao prazer genuíno e à realização, essa força vital fica aprisionada em um labirinto de fantasias mentais e se descarrega através de sintomas que não trazem nenhuma satisfação real. É puro gozo,…