Quando Aprendi a Não Atravessar Todos Portais

Por muito tempo, achei que todo desejo era um chamado para agir.
Que sentir vontade era sinônimo de precisar atravessar.
Que o novo só se completava quando eu entrava, comprava, consumia, fazia.

Hoje eu vejo diferente.
Hoje eu reconheço: isso que eu vivo é um tipo de limiar cotidiano.

Nem todo limiar é vida ou morte.
Nem todo portal pede entrega total.
Alguns são micro-limiares de experiência — sutis, silenciosos, quase invisíveis.

Eles aparecem assim:
Um objeto que chama minha atenção.
Uma comida que desperta curiosidade.
Uma ideia que acende algo por dentro.
Uma possibilidade que sussurra:
“Quero ver como é.”

E aprendi algo importante sobre mim:
Isso não é compulsão.
Nunca foi.
É curiosidade de travessia.

Quando esse estímulo surge, meu corpo abre um micro-portal.
Não para possuir, mas para sentir.
Não para acumular, mas para perceber.

É como se algo em mim perguntasse:
“O que muda em mim se isso entrar?”

Antes, eu atravessava automaticamente.
Sentia o chamado, entrava, consumia, experimentava —
e só depois avaliava.

Mas isso me custava energia.
Às vezes dinheiro.
Às vezes tempo.
Às vezes um leve arrependimento.
A sensação de “não precisava”.

Hoje, algo mudou.
E essa mudança não veio de regra moral, controle ou rigidez.
Veio de maturidade da função.

Eu aprendi a observar o portal sem atravessar.

Aprendi que posso sentir o desejo sem obedecê-lo.
Que posso imaginar sem executar.
Que posso perceber sem consumir.

Dou a mim mesma 24 horas.
Não como castigo, mas como espaço neurológico e energético.

Nesse tempo, a urgência baixa.
A dopamina se acalma.
A fantasia perde volume.

E então, algo muito honesto acontece.

Às vezes, o desejo permanece.
E quando permanece, eu sei:
não era só curiosidade —
era alinhamento real.
Atravessar faz sentido.

Outras vezes, o desejo simplesmente some.
E eu entendo:
aquilo era só um portal informativo.
Eu já recebi o que precisava —
a imagem, a sensação, a ideia.
Sem custo.

E há momentos em que o desejo se transforma.
Percebo que não queria comprar, nem viver, nem assumir.
Eu só queria sentir como seria.
E isso já aconteceu dentro de mim.

Hoje eu sei:
nem todo desejo pede consumo.
Alguns só pedem consciência.

Isso vale para tudo:
comida, compras, experiências, relações, cursos, projetos.

Atravessar é entrar.
Observar é sentir.

E agora, eu posso escolher.

Quando algo novo surge, eu digo ao meu corpo, em silêncio:

“Eu vi.
Eu senti.
Agora eu espero.”

E isso, por si só, já fecha o micro-limiar.

Paula Teshima