O Lugar Onde Não Me Abandono

Chega um momento em que a vida para de nos perguntar o que sabemos e começa a nos perguntar o que sustentamos. Não é mais sobre compreender, analisar ou nomear padrões.

É sobre permanecer.

Permanecer em si quando algo fora atravessa, fere, desorganiza ou provoca.

Durante muito tempo, aprendi que me proteger significava retirar. Retirar o amor, a ajuda, a presença. Aprendi que, quando alguém errava comigo, o silêncio era uma forma de defesa, quase um escudo invisível. Um silêncio que punia, afastava, congelava. Não porque eu quisesse machucar, mas porque eu não sabia permanecer sem me perder. Esse silêncio era a linguagem possível de quem não aprendeu a se cuidar sem se fechar.

Hoje, algo mudou de lugar.

Eu percebo que não preciso mais que o outro aja corretamente para que eu esteja bem. Não preciso controlar, corrigir, ensinar ou punir para me sentir segura. Porque a minha segurança já não depende mais do comportamento alheio. Ela nasce do compromisso que faço comigo: o de não me abandonar.

Isso não significa que eu não sinta. Eu sinto. Eu me irrito, me frustro, me entristeço. Às vezes erro, falho, reajo como antes. Mas, agora, mesmo quando erro, eu fico comigo. Não uso o erro como justificativa para me atacar. Não transformo a falha em sentença. Eu reconheço: aqui há algo que ainda não vi, algo que ainda está amadurecendo.

E isso pede presença, não punição.

O autocuidado que emerge desse lugar não é condicionado. Ele não depende do outro mudar, entender ou se tornar mais consciente. Ele existe mesmo quando o outro permanece igual. E por isso, algo se liberta…

Quando eu sei que vou continuar me cuidando independentemente do que aconteça, o impulso de controlar o outro perde força. A necessidade de corrigir desaparece. O silêncio punitivo deixa de fazer sentido.

Aprendo, então, um novo gesto interno: posso ajudar sem me trair, posso dizer não sem raiva, posso permanecer sem me submeter, posso me afastar sem cortar. Posso escolher. E essa escolha não nasce da reação, mas do eixo.

Percebo também que a autocompaixão é uma forma elevada de lucidez. Não é passar a mão na cabeça, nem justificar tudo. É compreender que erramos, na maioria das vezes, por inconsciência — não por maldade. E quando isso fica claro, a violência interna não se sustenta mais. O julgamento cede lugar ao aprendizado. O fracasso vira degrau.

Talvez eu não consiga agir de forma perfeita. Talvez eu ainda tropece nos mesmos lugares. Mas, agora, eu erro um pouco melhor. Um pouco mais consciente. Um pouco mais inteira. E, acima de tudo, sem me abandonar no caminho.

Esse é o limiar onde estou: o lugar em que nada fora precisa mudar para que eu permaneça em mim.

Paula Teshima