O Cachorro Que Não Veio Para Ficar Comigo

Há experiências que não chegam para construir morada.
Chegam para romper um padrão silencioso, atravessar um limiar interno e ir embora.
O que vivi com o Théo, um cachorro que adquiri após a perda de uma cachorra guardiã, foi exatamente isso.

Por muito tempo, associei valor à duração. Se algo não permanecia, eu tendia a revisitar o gesto, questionar a escolha, duvidar da minha percepção. Como se o tempo fosse o juiz final da verdade de um ato. Mas essa experiência me ensinou outra coisa: há atos que não pedem permanência, pedem acontecimento.

Quando trouxe o Théo, não havia garantia. Havia presença. Havia risco. Havia um corpo que, pela primeira vez, não ficou paralisado diante da possibilidade de perda. Eu não sabia se daria certo. E justamente por isso, algo essencial pôde acontecer.

O aprendizado não foi sobre cuidar, nem sobre salvar, nem sobre acertar. Foi sobre agir sem certeza e não me abandonar depois.

Durante muito tempo, vivi sob um pacto silencioso comigo mesma: só ajo quando tenho controle suficiente para não falhar. Esse pacto nasce cedo, quando errar parece perigoso demais. Ele cria vidas organizadas, responsáveis, conscientes — e também cria congelamentos profundos. O que não é garantido acaba não sendo tentado. O que pode falhar não é vivido.

O gesto com o Théo quebrou esse pacto.

Não porque deu certo.
Mas porque eu sobrevivi a ele sem me punir.

Houve cuidado. Houve intenção. Houve limite. Houve reconhecimento de que nem tudo pode — ou precisa — ser sustentado até o fim. E houve algo novo: eu não transformei o encerramento em culpa. Transformei em escuta.

Percebi que nem todo vínculo vem para durar, mas todo vínculo vem para ensinar algo sobre nós. O ensinamento aqui foi claro: agir não me destrói. Tentar não me desorganiza. Parar também é um gesto consciente.

Fechou-se, ali, um ciclo antigo de impotência. Não o ciclo da morte — porque a morte continuará existindo. Mas o ciclo da paralisia. O ciclo de chegar tarde demais. O ciclo de só assistir.

Desta vez, eu estive inteira no gesto.
E isso muda tudo.

Hoje sei diferenciar atos de permanência e atos de passagem. Sei reconhecer quando algo vem para ficar e quando vem apenas para atravessar comigo um trecho do caminho. Sei que duração não é sinônimo de valor. E que a vida não pede previsões perfeitas — pede presença honesta.

O que vivi com o Théo não foi um erro. Foi um limiar.
Um desses momentos em que a vida não pergunta se estamos prontas, apenas convida. E se dizemos sim, mesmo sem garantias, algo em nós pode se reorganizar para sempre.

Algumas experiências não ficam.
Mas deixam a porta aberta por dentro.

E isso basta.

Paula Teshima