A Mentira da Neutralidade: Quando o Analista Esconde sua Humanidade

Existe algo profundamente contraditório na postura psicanalítica clássica: pedimos ao paciente que seja vulnerável, autêntico, transparente – enquanto o analista permanece opaco, controlado, performaticamente neutro. Exigimos verdade enquanto oferecemos teatro.

O paciente pergunta: “Você parece diferente hoje, está tudo bem?” E o analista, que talvez esteja atravessando um divórcio, um luto, uma crise existencial, responde mecanicamente: “Estamos aqui para falar de você, não de mim.” Ou pior, mente: “Está tudo bem, sim.” E segue mantendo a máscara da indiferença profissional.

Mas o que estamos ensinando nesse momento? Que vulnerabilidade é para os fracos. Que pessoas “evoluídas” não demonstram fragilidade. Que existe uma hierarquia onde o analista está acima, imune, resolvido – e o paciente embaixo, bagunçado, necessitado. Estamos reproduzindo exatamente a dinâmica que adoeceu o paciente: relações assimétricas onde alguém finge estar bem para manter controle.

E para pacientes que vieram de lares frios, com pais emocionalmente indisponíveis, rígidos, distantes? Estamos repetindo o trauma. O analista vira mais um adulto inacessível, que não se deixa conhecer, que não oferece calor humano genuíno, que mantém distância “profissional” onde deveria haver encontro real.

Winnicott revolucionou isso ao entender que para certos pacientes, principalmente aqueles severamente privados afetivamente na infância, a cura não vem de interpretação – vem de provisão emocional. Eles não precisam de alguém que decifre seus sonhos. Precisam de alguém que os acolha, valide, demonstre cuidado real. Precisam experimentar, pela primeira vez, uma relação onde são vistos, aceitos, valorizados.

E isso não acontece através de neutralidade fria. Acontece através de presença humana autêntica.

Claro que há limites. O consultório não é um confessionário onde o analista despeja seus problemas. A sessão permanece centrada no paciente. Mas existe um abismo entre manter foco terapêutico e fingir ser robô emocional.

Quando o paciente percebe uma genuína presença – “sim, estou passando por algo difícil hoje, obrigado por notar, mas estou aqui inteiro para você” – ele aprende algo revolucionário: pessoas podem ter dificuldades e ainda assim estar presentes. Vulnerabilidade não é incompatível com força. Autenticidade não é fraqueza.

Mais importante: quando o analista se permite ser minimamente humano, o paciente relaxa. Porque percebe que não está sendo analisado por um juiz impecável, mas acompanhado por outro ser humano imperfeito que também luta, também duvida, também sangra. A vergonha diminui. A defesa baixa. A verdade pode finalmente emergir.

Sobre essa questão de “aprender a se amar sozinho” – é algo essencial que o discurso de autoajuda nega: amor próprio não nasce do nada. Não adianta repetir afirmações no espelho se você nunca foi amado concretamente por alguém. Não funciona “se dar” aquilo que nunca recebeu.

Bowlby, Winnicott, toda teoria do apego confirma: primeiro você precisa ser amado para depois poder se amar. Primeiro precisa receber cuidado para depois poder se cuidar. A capacidade de autorregulação emocional se desenvolve através de co-regulação – adultos que te acalmam quando criança até você internalizar essa função.

Se isso faltou, você não consegue simplesmente “decidir se amar”. Falta o molde interno. É como pedir que alguém fale um idioma que nunca ouviu. Por isso tantas pessoas fazem terapia, meditam, repetem mantras – e continuam se sentindo vazias. Porque estão tentando se dar algo que só pode ser recebido, primeiro, através de uma relação.

O analista, nesses casos, precisa ser essa presença reparadora. Não vai “curar” completamente a falta – nada cura completamente privação severa. Mas pode oferecer uma experiência corretiva: “Aqui, com essa pessoa, sou visto, aceito, valorizado. Talvez eu não seja tão defeituoso quanto aprendi a acreditar.”

E isso exige que o analista seja humano. Não perfeito, não resolvido, não superior. Apenas genuinamente presente. Capaz de dizer “percebi sua dor” com voz que carrega emoção real, não interpretação técnica. Capaz de admitir quando erra. Capaz de ser afetado pelo paciente – porque só quem se deixa afetar realmente acolhe.

A neutralidade clássica serve a quem? Protege o analista de se envolver emocionalmente. Mantém ilusão de controle. Preserva hierarquia confortável. Mas frequentemente falha em curar – especialmente traumas relacionais precoces.

Porque você não cura frieza com mais frieza. Não cura abandono com distância. Não ensina autenticidade através de fingimento.

Talvez seja hora de admitir: a postura mais terapêutica não é a neutralidade técnica, mas a autenticidade compassiva. Estar presente como ser humano imperfeito que genuinamente se importa – não como autoridade impassível que observa de cima.

Porque, no final, o que cura não é uma interpretação brilhante. É encontro real. E encontro real exige que ambos estejam na sala – não apenas o paciente exposto e o analista escondido atrás da técnica.

Paula Teshima

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