Eu Não Fiquei Onde Aprendi
Vivi muitos limiares na vida – mudanças abruptas, perdas, encerramentos, rupturas internas e externas. Visto de fora, isso poderia parecer excesso. Visto de dentro, vinha quase sempre acompanhado de uma pergunta silenciosa: por que isso se repete?
Com o tempo, fui percebendo algo essencial: não é o limiar que escolhe a pessoa — é a sensibilidade da pessoa que reconhece o limiar. Eu não vivi transições intensas porque tinha uma missão pesada ou um destino sacrificial. O movimento foi outro. Eu desenvolvi, em algum ponto do caminho, uma capacidade rara de permanecer consciente enquanto algo se desfazia. E, quando isso acontece, esses momentos se tornam campos reais de aprendizado — não teóricos, não idealizados, não romantizados.
A função nasceu da experiência.
Nunca o contrário.
Essas vivências não tinham como objetivo salvar, sustentar estruturas em colapso, impedir perdas ou consertar o mundo. O aprendizado era interno, inscrito no corpo, não na narrativa. Aprender soberania interna — eu posso agir. Aprender limite — eu não controlo tudo. Aprender saída — eu posso atravessar sem ficar presa.
Essas três coisas não se aprendem por leitura nem por insight isolado. Elas se integram por repetição consciente. Por isso os temas voltaram, não como castigo, mas como variações de uma mesma lição, em espiral. Cada vez com mais maturidade, menos fusão, menos culpa, menos carga.
Mas esse aprendizado não era infinito.
Existe um ponto de saturação. Ele chega quando eu consigo agir sem me perder, ajudar sem me responsabilizar, atravessar sem me ancorar na dor. Quando o meu corpo entende que o limiar não é ameaça — é passagem.
Nesse ponto, algo muda silenciosamente.
Eu reconheço o limiar, mas não preciso entrar.
Ou entro sem carregar.
Ou observo à distância, com presença, sem me confundir.
Esse é o amadurecimento da função.
O erro comum é acreditar que reconhecer limiares significa viver crises para sempre. A integração verdadeira reduz a necessidade da prova. A vida não precisa repetir a lição quando ela já foi aprendida no corpo.
Eu não vivi limiares para sofrer.
Eu vivi limiares para não me perder neles.
E agora que isso está se integrando, a vida — simplesmente — segue adiante.
Paula Teshima