Os Animais Não Vivem em Guerra com a Própria Imagem
Às vezes eu penso em como o ser humano passa boa parte da vida tentando corrigir a própria aparência.
O cabelo.
O corpo.
A pele.
O rosto.
Os detalhes mínimos que quase ninguém percebe além da gente mesmo.
E talvez exista um cansaço silencioso nisso.
Porque olhar para si acaba se tornando,
muitas vezes,
um exercício constante de comparação,
cobrança
e insatisfação.
Os animais parecem diferentes nesse aspecto.
Eles simplesmente existem.
Não tentam performar beleza.
Não vivem tentando parecer outra coisa.
Não passam o dia se observando para descobrir defeitos.
E talvez isso seja o que tanta gente chama de presença.
Essa capacidade de viver sem ficar o tempo inteiro dividido entre quem se é e quem gostaria de parecer.
Eu tenho percebido como o espelho, às vezes, revela muito mais do estado emocional da gente do que da aparência em si.
Tem dias em que a pessoa olha para o próprio rosto e só consegue enxergar falhas.
Outros dias,
o mesmo rosto parece leve.
Como se o olhar interno mudasse tudo.
E talvez mude mesmo.
Porque a relação que temos com nós mesmos atravessa completamente a forma como enxergamos o próprio corpo.
Eu tava pensando em como algumas pessoas evitam espelhos não por vaidade…
mas por dificuldade de encarar a própria vulnerabilidade.
O cansaço.
O envelhecimento.
As marcas emocionais.
As dores que o corpo também carrega silenciosamente.
E talvez os animais despertem tanta admiração justamente porque parecem livres dessa guerra interna.
Eles descansam.
Brincam.
Dormem ao sol.
Vivem o corpo de maneira muito mais natural.
Sem excesso de autocrítica.
Ao mesmo tempo,
acho importante lembrar que beleza não nasce apenas de “pureza espiritual” ou ausência total de ego.
Somos humanos.
Complexos.
Cheios de inseguranças,
histórias
e necessidades emocionais.
E tudo bem.
Talvez o caminho não seja deixar de olhar para si…
mas começar a fazer isso com um pouco mais de gentileza.
Menos julgamento.
Menos dureza.
Menos necessidade de perfeição.
Porque no fim,
talvez a verdadeira paz não esteja em nunca mais se reconhecer no espelho.
Talvez esteja em conseguir olhar para si mesmo sem sentir que precisa travar uma batalha todos os dias contra quem é.
Paula Teshima
