Os Gatos e os Silêncios Dentro da Gente
Às vezes eu sinto que os gatos despertam reações muito profundas nas pessoas.
Tem quem ame imediatamente.
Tem quem se incomode sem saber explicar.
Tem quem admire de longe,
mas não consiga se aproximar totalmente.
E talvez isso aconteça porque os gatos carregam uma presença difícil de controlar.
Eles não vivem tentando agradar o tempo inteiro.
Não oferecem afeto por obrigação.
Não escondem quando querem distância.
E isso mexe com muita coisa dentro da gente.
Eu tenho percebido como alguns vínculos revelam partes nossas que normalmente ficam escondidas.
A necessidade de controle.
A dificuldade de lidar com rejeição.
A carência.
A impaciência.
O desconforto diante do silêncio.
Os gatos parecem tocar exatamente nesses lugares.
Não porque estejam conscientemente tentando “curar” alguém…
mas porque a convivência verdadeira inevitavelmente faz certas emoções aparecerem.
E talvez seja por isso que algumas pessoas sintam tanto incômodo.
Porque olhar para o comportamento de um gato às vezes também obriga a olhar para si mesmo.
Para a própria ansiedade.
Para as expectativas projetadas nos outros.
Para o desejo constante de validação e resposta imediata.
Tem horas que um gato simplesmente vai embora no meio do carinho.
E isso basta para despertar sentimentos que pareciam pequenos,
mas não eram.
Eu tava pensando em como amadurecer emocionalmente talvez tenha relação com essa capacidade de se observar sem tanto julgamento.
Perceber as próprias reações.
Os próprios gatilhos.
Os vazios emocionais que tentamos preencher silenciosamente nas relações.
E talvez ninguém consiga fazer esse processo completamente sozinho.
Às vezes a terapia ajuda.
Às vezes a leitura.
Às vezes o silêncio.
Às vezes a convivência com outros seres.
O importante talvez seja desenvolver coragem para olhar para dentro com honestidade.
Sem transformar isso numa guerra contra si mesmo.
Porque o autoconhecimento não deveria ser uma tentativa desesperada de consertar quem somos.
Talvez seja mais um processo de aproximação.
De entender,
aos poucos,
aquilo que sentimos,
aquilo que evitamos
e aquilo que ainda precisa de acolhimento dentro da gente.
Paula Teshima
