O Peso de Devolver a Dor
Tem horas que a vontade de revidar parece justa.
Alguém nos machuca.
Nos decepciona.
Nos ignora.
Nos trata de uma forma que jamais trataríamos.
E então surge aquele impulso silencioso de fazer o mesmo.
Como se devolver a dor pudesse equilibrar a balança. Como se isso finalmente trouxesse alívio.
Mas eu tenho percebido que a vingança raramente entrega aquilo que promete.
Ela parece oferecer força. Mas muitas vezes apenas prolonga o sofrimento.
Porque, enquanto estamos ocupados tentando atingir o outro, continuamos presos ao acontecimento que nos feriu.
A dor permanece ocupando espaço. Permanece conduzindo nossas escolhas.
Eu tava pensando que existe algo curioso nisso tudo.
Quando alguém age de uma forma que nos machuca, geralmente é porque aquela atitude entra em conflito com algo que valorizamos.
Respeito.
Cuidado.
Consideração.
Honestidade.
Por isso dói tanto.
Porque esperamos algo diferente.
E talvez a grande questão seja o que fazemos depois.
Podemos transformar a ferida em mais ferida. Ou podemos interromper o ciclo.
Não por fraqueza.
Não por passividade.
Mas porque entendemos que repetir aquilo que nos machucou não nos aproxima da paz que estamos procurando.
Tem horas que a resposta mais difícil não é reagir. É escolher não se tornar aquilo que nos feriu. É manter os próprios valores mesmo quando existe uma parte de nós pedindo revanche.
Porque qualquer pessoa consegue devolver dureza com dureza.
Mas é preciso muita maturidade para responder sem abandonar quem se é.
Isso não significa aceitar tudo. Nem permitir abusos. Nem continuar próximo de quem nos faz mal.
Existem afastamentos necessários. Existem limites importantes. Existem portas que precisam ser fechadas.
Mas uma coisa é criar distância. Outra é carregar ressentimento para sempre.
Com o tempo, percebi que algumas pessoas nunca recebem de volta exatamente aquilo que fizeram.
A vida segue caminhos mais complexos do que a nossa necessidade de justiça imediata. E talvez a verdadeira libertação não aconteça quando o outro sofre.
Talvez aconteça quando a dor deixa de controlar nossas decisões.
Quando já não sentimos necessidade de provar nada. Quando seguimos em frente sem desejar vingança.
Porque, no fim, a paz raramente nasce daquilo que devolvemos ao mundo. Ela nasce daquilo que escolhemos não continuar espalhando.
E existe uma liberdade imensa quando finalmente deixamos de carregar aquilo que um dia nos feriu.
Paula Teshima
