Existe Um Cansaço em Viver Longe de Si
Às vezes eu sinto
que a pior solidão não é estar sozinho.
É passar tanto tempo sem poder ser quem você realmente é que, aos poucos, você começa a desaparecer de si mesmo.
No começo parece sobrevivência.
A pessoa aprende a esconder partes dela.
Aprende a adaptar a voz.
Os gestos.
Os sentimentos.
Aprende a existir sem ocupar muito espaço.
E talvez ninguém perceba.
Porque por fora ela continua funcionando.
Continua respondendo.
Sorrindo às vezes.
Cumprindo o que esperam dela.
Mas por dentro existe um cansaço difícil de colocar em palavras.
O cansaço de sustentar uma vida que não combina mais com a própria alma.
Tem uma dor muito silenciosa em precisar esconder constantemente aquilo que é mais verdadeiro dentro da gente. Como se existir exigisse apagar a própria presença.
E depois de muito tempo assim, alguma coisa começa a morrer devagar.
Não de forma literal no começo.
Mas emocionalmente.
Internamente.
A pessoa vai ficando distante dela mesma.
Sem desejo.
Sem energia.
Sem vontade de continuar aparecendo no mundo.
Porque viver o tempo inteiro interpretando alguém cobra um preço enorme.
E chega um momento em que desaparecer parece menos doloroso do que continuar sustentando uma existência onde ela nunca pode ser inteira.
Isso é o que quase ninguém entende.
Às vezes a pessoa não quer exatamente morrer. Ela só não aguenta mais viver sem conseguir existir de verdade.
Então ela se torna invisível.
Fala menos.
Se esconde mais.
Evita ser vista profundamente.
Como se estivesse tentando proteger a última parte verdadeira que ainda restou dentro dela.
E existe algo profundamente triste nisso.
Porque todo ser humano precisa sentir que pode existir sem precisar pedir desculpas pela própria essência.
Precisa respirar sem vigiar cada detalhe do que sente. Precisa descansar da tentativa constante de parecer outra coisa.
Quando isso não acontece por tempo demais, viver deixa de parecer vida.
Vira apenas permanência.
Uma presença cansada.
Automática.
Apagada.
E talvez seja por isso que algumas pessoas somem emocionalmente antes mesmo de irem embora de fato.
Porque ninguém consegue permanecer inteiro vivendo tantos anos distante de si mesmo.
No fundo, acho que o que mais machuca não é só o medo de ser rejeitado.
É perceber que, para continuar sendo aceito, talvez tenha sido necessário abandonar a própria existência aos poucos.
E existe uma tristeza muito profunda em sentir que o mundo conhece uma versão sua… mas nunca conheceu você de verdade.
Paula Teshima
