A Parte Que Resiste

Tem horas que mudar por dentro não parece bonito.

Não tem clareza.
Não tem leveza.
Não tem aquela sensação imediata de liberdade que todo mundo fala.

Às vezes, o que vem é cansaço.
Confusão.
Emoções bagunçadas.
Um peso estranho no peito
que você nem consegue explicar direito.

E eu acho que parte disso acontece
porque crescer internamente mexe em lugares antigos.

Lugares que passaram anos fechados.

Quando você começa a enxergar certas coisas, já não consegue fingir que não viu. Só que também não consegue mudar tudo de uma vez.

Então nasce esse conflito silencioso.

Uma parte sua quer seguir em frente.
Quer deixar ir.
Quer respirar diferente.

Mas outra ainda sente medo.

Medo do desconhecido.
Medo de perder referências antigas.
Medo de soltar dores
que, de algum jeito,
acabaram virando companhia.

Eu tenho percebido como existe resistência
até dentro daquilo que nos machuca.

Porque o conhecido, mesmo doloroso,
ainda parece mais seguro
do que aquilo que a gente não sabe como vai ser.

E talvez seja por isso
que alguns processos internos cansam tanto.

Não é só sobre mudar hábitos,
pensamentos
ou atitudes.

É sobre desmontar versões inteiras de si mesmo.

É sobre perceber
que certas reações nasceram da necessidade de sobreviver emocionalmente.

E quando elas começam a ir embora,
alguma parte sua entra em alerta.

Como se estivesse tentando proteger você de uma mudança que ainda não entende.

Por isso nem sempre a transformação vem em paz.

Às vezes ela vem em silêncio,
em sensibilidade demais,
em vontade de se afastar um pouco do mundo.

E tudo bem.

Nem toda resistência significa fracasso.

Às vezes significa apenas
que existe uma parte sua
tentando aprender,
aos poucos,
como viver sem os pesos
que carregou por tanto tempo.

Talvez a cura também seja isso:
não se forçar a acelerar,
mas continuar,
mesmo quando ainda existe medo dentro do caminho.

Paula Teshima