A Espontaneidade Que Foi Se Apagando

Existe uma dor muito silenciosa em não se sentir percebido logo no começo da vida.

Porque um bebê não entende ausência emocional de forma racional.
Ele apenas sente.

Sente quando o olhar não encontra o dele.
Quando o acolhimento falha repetidamente.
Quando suas necessidades emocionais parecem não alcançar o outro.

E às vezes isso acontece não por falta de amor…
mas porque a mãe também está afundada nos próprios sofrimentos,
nos próprios medos,
na própria sobrevivência emocional.

Tem pessoas tão sobrecarregadas internamente
que acabam sem espaço psíquico para perceber profundamente o filho.

Então o bebê vai aprendendo algo muito cedo:
sua espontaneidade talvez não encontre resposta.

E isso muda tudo.

Porque a expressão espontânea de uma criança depende da sensação de segurança emocional.
Da experiência de existir livremente sem perder conexão.

Mas quando o ambiente não sustenta isso, ela começa a se adaptar.

Se cala mais.
Observa mais.
Controla reações.
Tenta não incomodar.
Tenta perceber o que precisa ser
para continuar recebendo vínculo.

E aos poucos surge uma espécie de existência moldada.

Não necessariamente falsa de forma consciente.
Mas distante da essência espontânea que existia antes da adaptação.

Eu tenho percebido como muitas pessoas adultas carregam esse cansaço sem entender de onde vem.

A dificuldade de saber o que realmente sentem.
O medo constante de decepcionar.
A necessidade de agradar.
A sensação de estar sempre “atuando” socialmente.

Como se existisse uma vida acontecendo por fora…
e outra,
muito mais verdadeira,
silenciosamente escondida.

E talvez uma das experiências mais difíceis seja perceber isso em si mesmo:
notar quantas partes autênticas precisaram ser abafadas para manter pertencimento emocional.

Mas também existe algo profundamente humano no reencontro.

Porque mesmo depois de anos vivendo através de adaptações,
alguma parte espontânea continua ali.

Às vezes muito escondida.
Assustada.
Sensível.

Esperando encontrar, finalmente,
um espaço onde não precise mais abandonar a si mesma para ser amada.

Paula Teshima