A Voz Que Continua Dentro de Nós
Às vezes eu sinto que existe uma parte de mim que sabe.
Não sabe tudo.
Mas sabe o suficiente para indicar o próximo passo.
O curioso é que essa voz raramente grita.
Ela não impõe. Não força. Ela apenas espera.
Durante muito tempo, talvez a gente viva distante dessa presença interior.
Tomando decisões no automático.
Reagindo às circunstâncias.
Tentando sobreviver aos dias sem realmente escutar o que acontece por dentro.
E, sem perceber, aquela parte mais ferida de nós acaba assumindo o controle.
A criança que sentiu medo.
Que não se sentiu vista.
Que aprendeu a se proteger como podia.
Não porque ela seja um problema. Mas porque ainda está cansada de carregar tudo sozinha.
Talvez crescer tenha menos relação com idade e mais com presença. Com a capacidade de acolher essa criança sem abandoná-la. De ouvir suas dores sem permitir que elas decidam todos os caminhos.
Eu tenho percebido que a vida costuma nos chamar para esse encontro de maneiras inesperadas.
Às vezes através de um silêncio estranho. Outras vezes através de perdas, crises ou momentos em que nada parece fazer sentido.
São fases difíceis.
Mas também são fases que nos obrigam a olhar para dentro.
Porque quando tudo o que conhecíamos deixa de funcionar, surge uma pergunta inevitável: e agora?
Talvez seja justamente aí que algo desperte.
Não como uma revelação grandiosa.
Mas como uma lembrança.
A lembrança de que existe uma sabedoria dentro de nós que nunca foi embora.
Uma parte que continua observando.
Aprendendo.
Esperando ser ouvida.
A partir desse encontro, algumas coisas começam a mudar.
Não porque os problemas desaparecem.
Mas porque deixamos de enfrentá-los sozinhos.
Passamos a desenvolver mais compaixão por quem fomos.
Mais paciência com nossos processos.
Mais gentileza com nossos erros.
E isso transforma muita coisa.
Tem horas que penso que amadurecer é exatamente isso.
Construir uma relação de confiança consigo mesmo.
Aprender a escutar a própria verdade em meio ao barulho do mundo.
Perceber que nem todas as respostas vêm de fora.
Algumas chegam em forma de sensação.
De intuição.
De paz.
E quando fazemos silêncio suficiente para ouvi-las, descobrimos algo bonito: a voz que procurávamos sempre esteve aqui.
Falando baixo.
Mas nunca ausente.
Paula Teshima
