Aquilo Que Tentamos Preencher

Às vezes eu sinto que alguns hábitos carregam uma pergunta silenciosa dentro deles.

Não importa exatamente qual seja.

Pode ser uma comida que buscamos sem fome. Uma compra impulsiva. Horas perdidas rolando a tela do celular. A necessidade constante de atenção. Ou qualquer coisa que, por alguns instantes, pareça aliviar algo que não sabemos explicar.

E talvez a questão mais difícil não seja o hábito em si. Talvez seja aquilo que está por trás dele.

Porque existem vazios que tentamos preencher sem sequer compreender de onde vieram.

Eu tava pensando que, muitas vezes, quando surge uma vontade intensa de buscar alguma distração, existe também uma emoção pedindo para ser ouvida.

Uma tristeza.
Uma solidão.
Um medo.
Um cansaço.
Algo que não encontrou espaço para existir.

Então procuramos conforto do lado de fora.

E isso é tão humano.

Todos nós fazemos isso em algum momento.

Buscamos algo que alivie rapidamente aquilo que está pesando por dentro.

O problema é que alguns alívios passam rápido demais. E quando desaparecem, a sensação continua ali.

Esperando.
Silenciosa.

Eu tenho percebido que existe algo muito poderoso em simplesmente parar por alguns instantes.

Respirar.
Fechar os olhos.
Levar a atenção para dentro.

Talvez não para repetir palavras perfeitas. Mas para lembrar a si mesmo que merece cuidado.

Que merece acolhimento. Que não precisa estar em guerra consigo o tempo inteiro.

Porque há dias em que a coisa mais difícil não é abandonar um hábito. É permanecer na própria companhia. Escutar aquilo que sentimos sem fugir imediatamente.

E isso exige coragem.

Muita coragem.

Talvez algumas mudanças profundas comecem justamente quando deixamos de lutar contra nós mesmos. Quando trocamos a culpa pela compreensão. Quando paramos de nos enxergar como um problema a ser corrigido e começamos a nos enxergar como alguém que precisa de atenção genuína.

Não da atenção dos outros. Mas da nossa própria.

Porque existem partes de nós que passaram tanto tempo sendo ignoradas que aprenderam a pedir socorro de formas confusas.

E talvez o verdadeiro cuidado não seja apenas resistir ao impulso de buscar algo lá fora. Talvez seja aprender, pouco a pouco, a oferecer para si mesmo aquilo que sempre esteve procurando.

Presença.
Acolhimento.
Compreensão.
E um pouco mais de gentileza consigo.

Às vezes, é exatamente aí que começa a transformação.

Paula Teshima