Quando Esperamos Que o Outro Preencha o Vazio
Às vezes eu sinto que algumas das maiores decepções não nascem daquilo que o outro faz.
Elas nascem daquilo que esperamos receber.
Esperamos atenção.
Presença.
Confirmação.
Cuidado.
E, quando isso não acontece da forma que imaginamos, algo dentro de nós se inquieta.
Surge a frustração.
A tristeza.
A sensação de ter sido deixado de lado. Como se o comportamento do outro fosse uma prova de que não somos importantes.
Mas eu tenho percebido que nem sempre a dor fala sobre o presente. Muitas vezes ela toca algo muito mais antigo.
Uma necessidade que já existia antes daquela pessoa chegar. Um medo que já estava ali. Uma insegurança que ainda procura acolhimento.
Eu tava pensando em como é fácil acreditar que a solução está no comportamento do outro.
Que ele deveria mandar mais mensagens. Demonstrar mais interesse. Estar mais disponível. Ser mais presente.
E claro, relacionamentos saudáveis precisam de atenção e reciprocidade.
Mas existe uma diferença delicada entre desejar proximidade e depender dela para se sentir bem.
Quando a nossa paz depende completamente da atitude de outra pessoa, qualquer ausência parece abandono. Qualquer distração parece rejeição. Qualquer silêncio parece distância.
E isso pode ser muito cansativo para quem sente. E para quem recebe essa expectativa.
Talvez algumas dores insistam em voltar justamente porque estão tentando nos mostrar algo. Não sobre o outro. Mas sobre nós.
Sobre a forma como nos enxergamos. Sobre a maneira como cuidamos das nossas próprias necessidades emocionais. Sobre o quanto ainda acreditamos que alguém precisa nos completar.
Tem horas que amadurecer emocionalmente significa aprender a oferecer para si mesmo aquilo que sempre buscou fora.
Acolhimento.
Validação.
Companhia.
Respeito.
Não para deixar de amar os outros. Mas para não depender exclusivamente deles.
Porque quando encontramos um pouco mais de equilíbrio dentro de nós, algo muda.
O outro continua importante. Continua especial. Continua fazendo parte da nossa vida. Mas deixa de carregar a responsabilidade de sustentar toda a nossa felicidade.
E talvez exista uma liberdade muito bonita nisso.
A liberdade de amar sem controlar. De sentir sem exigir. De estar junto sem transformar o outro na solução de todas as nossas faltas. Porque cuidar da saúde emocional também é isso. Olhar para dentro com honestidade. Reconhecer as próprias feridas.
E, aos poucos, aprender a construir dentro de si o abrigo que antes procurava em todos os outros lugares.
Paula Teshima
