Os Animais Não Estão em Guerra Consigo Mesmos

Às vezes eu olho para os animais e penso em como existe algo muito simples e bonito na forma como eles existem.

Eles não tentam parecer outra coisa.
Não escondem quem são.
Não vivem em guerra constante com a própria aparência.

Só vivem.

E talvez seja por isso que a presença deles pareça tão leve às vezes.

Porque o ser humano passa boa parte da vida tentando corrigir a si mesmo diante do olhar dos outros.

A pele.
O corpo.
O rosto.
O envelhecimento.
As marcas do tempo.

Como se existir naturalmente nunca fosse suficiente.

Eu tenho percebido como muita da nossa dor nasce da dificuldade de aceitar a própria humanidade.

A vulnerabilidade.
As mudanças.
O fato de que o corpo carrega emoções,
histórias,
cansaços
e tudo aquilo que vivemos ao longo do tempo.

Mas eu acho importante lembrar que doenças,
envelhecimento
e sofrimento físico não acontecem apenas por causa de pensamentos negativos
ou “falta de evolução interior”.

A vida é muito mais complexa do que isso.

Existem fatores genéticos.
Ambientais.
Biológicos.
Sociais.
Emocionais também.

Tudo se mistura.

Mesmo assim,
é verdade que a forma como vivemos emocionalmente afeta profundamente nosso corpo.

O excesso de estresse.
A falta de descanso.
A violência interna constante.
A dificuldade de desacelerar.

Tudo isso vai deixando marcas silenciosas na gente.

E talvez os animais nos toquem tanto porque parecem mais presentes no próprio corpo.

Eles descansam quando precisam.
Brincam quando têm energia.
Se recolhem quando estão cansados.

Sem tantas camadas de cobrança interna.

Eu tava pensando em como talvez a beleza tenha muito mais relação com presença do que com perfeição.

Com alguém que consegue existir de maneira mais inteira.
Mais tranquila dentro de si.

Porque algumas pessoas têm uma luz difícil de explicar,
mesmo sem caber em nenhum padrão estético.

Talvez venha da forma como olham a vida.
Da leveza que carregam.
Da ausência de tanta guerra interna.

E talvez os animais nos lembrem justamente disso:
há algo profundamente bonito em simplesmente existir sem precisar lutar o tempo inteiro contra quem se é.

Paula Teshima