O Espelho Que Incomoda

Às vezes eu sinto que algumas pessoas despertam um desconforto difícil de explicar.

Não é exatamente raiva.
Nem rejeição completa.

É só uma sensação estranha.
Como se algo ali tocasse uma parte sensível demais dentro da gente.

E quase sempre a primeira reação é se afastar.

Julgar em silêncio.
Criar distância.
Pensar:
“eu nunca seria assim.”

Mas eu tenho percebido uma coisa desconfortável.

Muitas vezes,
aquilo que mais incomoda no outro
encosta justamente em partes nossas que ainda não sabemos olhar com carinho.

Fragilidades.
Medos.
Inseguranças.
Vaidades.
Carências escondidas.

Coisas que tentamos manter longe da consciência
porque dói admitir.

Então fica mais fácil enxergar fora.

Mais fácil apontar.
Mais fácil rejeitar no outro aquilo que ainda não conseguimos acolher em nós mesmos.

E isso mexe comigo.

Porque aceitar o outro já é difícil.
Mas aceitar certas partes da própria humanidade…
talvez seja mais ainda.

Tem partes nossas que queremos esconder até de nós.

A necessidade de aprovação.
O ego ferido.
A inveja silenciosa.
O medo de não sermos suficientes.
As contradições.

A gente quer ser luz o tempo inteiro.
Calmo o tempo inteiro.
Evoluído o tempo inteiro.

Mas ser humano nunca foi tão organizado assim.

Talvez amadurecer tenha relação com isso:
parar de lutar tanto contra a própria complexidade.

Não para justificar tudo.
Nem para deixar de crescer.

Mas para olhar pra si com um pouco mais de honestidade.
E menos dureza.

Porque quando eu reconheço minhas próprias sombras,
eu também paro de exigir perfeição das pessoas.

E talvez seja por isso que algumas relações ficam mais leves depois de certo tempo.

Não porque os defeitos desaparecem.
Mas porque a gente entende que todo mundo está tentando lidar,
do jeito que consegue,
com partes internas que ainda doem.

Paula Teshima