Entre a Falta e o Excesso
Às vezes eu penso que alguns excessos não nascem do desejo.
Nascem da falta.
De algo que ficou ausente por tanto tempo que, quando finalmente aparece, a gente não sabe mais medir.
E então exagera.
Se envolve demais.
Entrega demais.
Consome demais.
Espera demais.
Não porque aquilo seja realmente necessário,
mas porque existe uma parte interna
tentando compensar o vazio antigo.
Como alguém que passou muito tempo com sede
e agora bebe rápido demais,
sem perceber o próprio limite.
Tem faltas que continuam vivas dentro da gente
mesmo depois que a vida muda.
Falta de afeto.
De atenção.
De segurança.
De pertencimento.
E quando alguma coisa toca exatamente esse lugar,
é difícil manter equilíbrio.
Porque não é só sobre o presente.
É também sobre tudo aquilo
que um dia não aconteceu.
Eu tenho percebido como certas pessoas
não se apegam apenas ao que recebem.
Elas se apegam à sensação de finalmente sentir
o que passou anos faltando.
E isso confunde.
Porque parece intensidade.
Parece amor.
Parece necessidade.
Mas às vezes é só uma carência antiga
tentando descansar pela primeira vez.
O problema é que,
quando a gente não olha pra esse vazio com honestidade,
acaba vivendo nos extremos.
Ou sente demais.
Ou se afasta demais.
Ou se entrega por inteiro.
Ou desaparece sem aviso.
Como se nunca existisse meio-termo.
E talvez o equilíbrio não venha
de aprender a sentir menos.
Talvez venha de entender
o que existe por trás da urgência.
Do medo de perder.
Da necessidade de preencher.
Da ansiedade de segurar aquilo
que um dia faltou.
Porque algumas partes nossas
ainda agem como quem vive escassez,
mesmo quando já não está mais sozinho.
E reconhecer isso
talvez seja uma das formas mais silenciosas de amadurecer.
Perceber que nem todo excesso é exagero.
Às vezes,
é só uma tentativa cansada
de preencher uma ausência
que ficou aberta tempo demais.
Paula Teshima
