Aquilo Que Te Prende
Às vezes eu sinto
que a gente se acostuma com certas dores sem perceber.
Como alguém que fica tempo demais
num quarto escuro e depois já nem estranha a falta de luz.
Tem coisas que machucam,
mas ainda assim parecem impossíveis de soltar.
Um apego.
Um ressentimento.
Uma memória.
Uma versão antiga de quem a gente foi.
E o mais estranho é perceber
que muitas vezes ninguém está segurando a porta.
A sensação de prisão existe,
mas as correntes já não estão mais ali.
Só que o medo continua.
Medo do vazio.
Do desconhecido.
De descobrir quem a gente seria
sem aquilo que passou tanto tempo carregando.
Eu tenho percebido como alguns sentimentos acabam virando parte da nossa identidade.
A tristeza.
A culpa.
A necessidade de controle.
Até a dor, às vezes.
Como se deixar ir
fosse também deixar uma parte de nós desaparecer.
Mas talvez libertação não seja perder a si mesmo.
Talvez seja justamente se encontrar
depois de tanto tempo vivendo no automático.
E eu acho que esse caminho começa
quando a gente para de fugir do que sente.
Quando olha pros próprios medos
sem tentar abafá-los o tempo inteiro.
Quando reconhece a criança que ainda existe dentro da gente,
aquela parte silenciosa
que continua esperando cuidado,
acolhimento,
permissão pra descansar.
Porque tem dores antigas
que continuam decidindo nossa vida
mesmo anos depois.
E ninguém consegue atravessar isso pela gente.
As pessoas podem oferecer amor.
Presença.
Abraço.
Mas existe uma porta interna
que só abre quando a gente escolhe encarar a si mesmo
com honestidade.
No fim,
a liberdade talvez não tenha a ver com ir embora,
mudar tudo
ou começar outra vida.
Às vezes,
ela começa devagar.
No instante em que você percebe
que não precisa continuar preso
ao que já deveria ter sido soltado há muito tempo.
Paula Teshima
