O Cansaço de Existir Longe de Si

Eu tenho percebido
como existe um tipo de cansaço que quase ninguém vê.

Não é o cansaço do corpo.
Nem aquele que passa depois de dormir um pouco mais.

É um desgaste silencioso de quem passa tempo demais tentando existir de um jeito que não cabe dentro de si.

Como se a pessoa precisasse se vigiar o tempo inteiro.

Controlar palavras.
Gestos.
Afetos.
Expressões pequenas que, pra muita gente, seriam naturais.

E talvez o mais triste seja que, no começo, isso até parece suportável.

A gente acha que consegue continuar.
Que dá pra se adaptar.
Que esconder certas partes de si não vai custar tanto assim.

Mas custa.

Custa aos poucos.

Porque viver longe da própria verdade cria uma sensação estranha de ausência. Como se a vida fosse acontecendo do lado de fora, enquanto por dentro tudo vai ficando cada vez mais distante.

Tem horas que a pessoa já nem sabe explicar exatamente o que sente.

Ela só percebe que parou de ocupar espaço.

Fala menos.
Aparece menos.
Deseja menos.
Vai ficando invisível sem perceber.

E não necessariamente porque quer desaparecer. Às vezes é só porque existir daquele jeito começou a doer demais.

Existe um momento em que sustentar uma versão de si exige uma força tão absurda que até respirar parece esforço.

Então a pessoa se apaga devagar.

Como quem vai diminuindo a própria presença pra não precisar continuar sustentando algo que machuca.

E eu acho que esse é um dos sofrimentos mais silenciosos que existem.

Porque de fora pode parecer apenas isolamento.
Timidez.
Frieza.
Distância.

Mas por dentro existe alguém cansado de não conseguir ser visto de verdade.

Alguém tentando sobreviver ao peso de acordar todos os dias dentro de uma vida que já não reconhece como sua.

Às vezes eu penso que o ser humano não nasceu pra viver escondendo a própria existência por tempo demais.

Tem algo dentro da gente que pede presença.
Verdade.
Pertencimento.

Mesmo quando o mundo faz parecer perigoso existir por inteiro.

E talvez seja por isso que algumas pessoas começam a desaparecer emocionalmente antes mesmo de desaparecer da vida.

Elas continuam aqui.
Respondem mensagens.
Sorriem quando precisam.
Cumpram rotinas.

Mas existe uma ausência difícil de explicar.

Como se uma parte delas tivesse ido embora há muito tempo.

Talvez porque ninguém consiga sobreviver intacto vivendo continuamente distante de quem realmente é.

E o mais delicado nisso tudo é que, muitas vezes, a pessoa não quer desistir da vida.

Ela só não aguenta mais viver sem conseguir existir de verdade.

Existe diferença.

Uma diferença silenciosa.
Profunda.
Dolorosa.

Porque no fundo, talvez o que ela queira não seja desaparecer.

Talvez ela só esteja cansada de nunca ter podido aparecer por inteiro.

Paula Teshima