A Raiva de Não Ter Agido Antes
às vezes eu penso
em como a raiva do passado tem um jeito estranho de permanecer dentro da gente.
não como um grito constante… mas como um peso silencioso que aparece em momentos aleatórios.
quando a casa fica quieta.
quando o dia termina.
quando a gente percebe
que certas coisas poderiam ter sido diferentes se tivesse tido coragem antes.
e talvez o que mais doa nem seja o que aconteceu. é imaginar quem a gente poderia ter sido se tivesse reagido mais cedo.
se tivesse dito não.
se tivesse ido embora.
se tivesse começado antes.
se tivesse acreditado mais em si mesmo naquele momento em que tudo parecia pequeno demais.
tem uma tristeza específica em olhar pra trás e perceber o quanto o medo, a insegurança ou o cansaço fizeram a gente permanecer em lugares que já estavam machucando.
e por muito tempo eu achei que essa raiva só servia pra destruir. pra corroer os dias. pra fazer a mente voltar continuamente pra cenas que não podem mais ser alteradas.
mas eu tenho percebido uma coisa.
às vezes a raiva é só uma parte de nós cansada de continuar parada.
porque existe uma diferença entre a culpa que paralisa e a dor que empurra. uma faz a pessoa afundar dentro do “já foi”. a outra, mesmo queimando por dentro, começa lentamente a dizer: “então faz diferente agora.”
e talvez seja isso que transforma tudo aos poucos.
não apagar o passado.
não fingir que não doeu.
não transformar cicatriz em discurso bonito.
mas usar o desconforto como movimento.
como alguém que finalmente entende que continuar imóvel também tem um preço.
acho que amadurecer passa muito por esse momento estranho em que a gente para de pedir uma nova chance pro passado… e começa a oferecer uma chance pro presente.
mesmo atrasado.
mesmo inseguro.
mesmo sem garantia de nada.
porque a verdade é que quase todo mundo carrega arrependimentos silenciosos. coisas que nunca contou pra ninguém. decisões que revisita mentalmente antes de dormir. momentos em que deveria ter se escolhido e não conseguiu.
e tudo bem sentir raiva disso.
talvez sentir seja inevitável.
o perigo é transformar essa raiva numa casa permanente.
tem dores que precisam virar combustível porque, se continuarem sendo só peso, acabam convencendo a gente de que não vale mais tentar.
e vale.
mesmo devagar.
mesmo começando no meio do caminho.
o passado realmente não muda.
isso é cruel às vezes.
mas o que a gente faz depois de olhar pra ele… talvez seja o que redefine o resto da vida.
e eu acho bonito quando alguém consegue transformar arrependimento em presença. quando para de perguntar “por que eu não fiz antes?” e começa, ainda tremendo um pouco, a perguntar “o que eu posso fazer agora?”
porque no fundo talvez seja isso que salva a gente da própria história: não a possibilidade de voltar atrás… mas a coragem silenciosa de finalmente seguir em frente.
Paula Teshima
